terça-feira, 17 de novembro de 2009

Heil Yeda!

**Geheime Staatspolizei


*Adão Paiani

A Gestapo, ou Geheime Staatspolizei, foi criada em 1933, por Hermann Göering, e originalmente era apenas um departamento da polícia prussiana. Seus membros, inicialmente, eram recrutados dentro da própria estrutura policial, que se tornou sinônimo de polícia política e representou bem todo o arbítrio nazista.
Seus primeiros alvos eram todos que se contrapunham ao nascente governo de Hitler. Comunistas, socialistas, anarquistas, liberais; depois católicos, protestantes, maçons e judeus. Ao fim, tornou-se o grande instrumento de dominação e terror sobre a Europa ocupada pelos nazistas.
Note-se que o início das atividades dessa polícia política nada tinha de ilegal; ao contrário; era plenamente justificada e legitimada pelo ordenamento jurídico alemão. Atuava, então, dentro de um governo eleito democraticamente; muito embora já demonstrasse claramente suas intenções despóticas.
Governos autoritários, em quaisquer momentos históricos, ou onde se encontrem; sempre se parecem. Uma das principais características que os irmanam é a utilização tanto das estruturas jurídicas e legais quanto das forças de segurança para ameaçar, perseguir e silenciar seus adversários.
Mas não o fazem sozinhos. Contam, sempre, com o silêncio conivente de parcela da população, que não se preocupa com isso até que o problema, devidamente armado e violento, venha a bater em sua porta. E quando isso ocorre, é tarde demais para uma reação incruenta; porque aí a democracia já sucumbiu. E então anarquistas, liberais e comunistas, dentre outros, podem experimentar a traumática, e curiosa, experiência de se unir na cadeia.
A notícia de que oito integrantes da Federação Anarquista Gaúcha foram indiciados por crimes contra a honra, incitação ao crime e formação de quadrilha ou bando; e que outros tantos dirigentes de entidades sindicais e movimentos sociais o virão a ser nos próximos dias; em razão das denúncias que fazem das ilegalidades praticadas pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, sob o comando de Yeda Rorato Crusius; após inquérito policial concluído em tempo recorde, é o mais grave atentado já praticado contra uma associação política no Rio Grande e no Brasil, desde a redemocratização do país.
Nem o regime militar, em seu declínio, a partir de 1979, não tinha mais força e coragem para praticar atos de tamanha insanidade, a exemplo deste.
Sintomaticamente, o citado inquérito policial foi concluído justamente por uma Distrital, a 17ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, que se tornou conhecida por acumular em suas dependências milhares e milhares de inquéritos inconclusos, sob a alegação de falta de estrutura operacional. Dentre as características desta Distrital, está a de situar-se ao lado do prédio da Secretaria de Segurança Pública do Estado; hoje comandada por um General da Reserva do Exército Brasileiro; e ter-se especializado em instaurar inquéritos contra adversários políticos da Governadora do Estado e de agentes do seu Governo; dentre esses este articulista, que igualmente tem lá contra si ao menos dois inquéritos em andamento, por razões políticas.
Além de todas as acusações não respondidas que pesam sobre sua gestão, Yeda Rorato Crusius deve agora também ser responsabilizada por esse odioso, brutal, covarde e autoritário atentado à liberdade de expressão, manifestação e direito de associação, todos constitucionalmente previstos e base fundamental de qualquer democracia que como tal queira ser reconhecida.
Qualquer governante minimamente comprometido com o juramento que fez ao ser empossado no cargo; de defender e garantir a democracia que permitiu sua eleição; embora se julgando ofendido pessoalmente pelas manifestações de contrariedade do povo; deve ter a grandeza de não utilizar-se de instrumentos, mesmo que legais, para silenciar os que lhes são contrários.
A isso se chama postura de Estadista; ou seja, a capacidade de colocar-se acima de questões menores, incompatíveis com a posição que ocupa; e entender a crítica mais dura como um direito dos cidadãos que lhe delegaram o poder que exerce.
Como desconhece o que significa ser uma Estadista, e tal tem demonstrado desde o momento que colocou seus pés no Palácio Piratini; no maior erro político já cometido na história do Rio Grande; Yeda Rorato Crusius dá mais uma clara demonstração de desrespeito à democracia, à liberdade e à cidadania.
A partir desse momento, todos nós, que denunciamos os abusos praticados por um governo democraticamente eleito; tal qual o de Adolf Hitler, em 1933; e que se transformou, dia-a-dia, em agente de espoliação, apropriação indébita e aparelhamento do Estado em benefício de uma camarilha, e agora algoz de seus cidadãos; estamos sujeitos à ação de sua polícia política.
Ou denunciamos já esse estado de coisas, suplantando quaisquer diferenças de caráter partidário ou ideológico, unindo todas as forças que defendem a liberdade nesse Estado; apelando inclusive para organismos internacionais, para que nos ajudem na denúncia e resistência a esses descalabros; ou seremos cúmplices do assassínio da nossa democracia.
E nem poderemos alegar, então, que o tiro foi pelas costas. Porque todos nós temos absoluta clareza e visão do que está acontecendo no Rio Grande.
Só nos resta partir das palavras para a ação. Só nos falta, verdadeiramente, reagir.
*Advogado
**Do Blog O Partisan.

O PT acordou:

Claro que isso não estará na pauta do Jornal Nacional.

A participação mais intensa do Estado em setores estratégicos poderá chegar às comunicações. O assunto estará em pauta, entre 1º e 3 de dezembro, quando o governo vai promover a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) em Brasília. O PT já aprovou resolução, defendendo a "revisão do arcabouço legal" do setor que o partido define como "anacrônico e autoritário".

Organizado em torno de normas como o Código Brasileiro de Telecomunicações (1962) e a Lei Geral de Telecomunicações (1997), "o arcabouço legal brasileiro privilegia grupos comerciais, em detrimento dos interesses da população". Esse modelo, segundo o PT, permite a "uns poucos grupos empresariais - muitas vezes associados a fortes conglomerados estrangeiros - exercer controle quase absoluto sobre a produção e veiculação de conteúdos informativos e culturais".

O partido vê "monopólios" e "desvios do sistema atual", dizendo que é "preciso intervir". "O PT lutará para que as demais ações estatais nessa área promovam a pluralidade e a diversidade, o controle público e social dos meios e o fortalecimento da comunicação púbica, estatal, comunitária e sem finalidade lucrativa", diz o texto, aprovado em 17 de outubro. "Mais do que combater os monopólios e todos os desvios do sistema atual, é preciso intervir para que eles não se repitam ou se acentuem nesse novo cenário tecnológico - que em poucos anos superará completamente o antigo modelo."

Com as mudanças provocadas por tecnologias digitais, o PT vê risco de o modelo ficar "mais concentrado e excludente". "A definição de um marco regulatório democrático estará no centro de nossa estratégia, tratando a comunicação como área de interesse público, criando instrumentos de controle público e social", diz a resolução.

O PT quer estabelecer "atribuições e limites para cada elo da indústria de comunicação". Defende intervencionismo na produção de conteúdo, ao propor "políticas, normas e meios para assegurar pluralidade e diversidade de conteúdos". E pede revisão nas concessões de emissoras de rádio e TV. A informação é do Estadão.

Nota do blogueiro:

Uma das maiores vítimas, no espectro político, desses anacronismos autoritários foi o próprio PT, desde sua criação, quando era achincalhado por conta dos símbolos (a bandeira vermelha e a estrela de cinco pontas, equivocada e imbecilmente associada ao burocratismo do Leste Europeu, regimes que encontravam contraponto até mesmo no estatuto do Partido), passando pelas manobras midiáticas efetuadas para eleger o ARENISTA Collor de Melo, para impedir a vitória petista, com outra vítima desses anacronismos, Leonel Brizola nos anos seguintes, além dos escândalos fabricados e factóides elevados à categoria de "furacões políticos", durante o governo Lula.

Durante os últimos sete anos, o PT vinha deixando esse debate de lado, interessado em sobreviver aos anacronismos de seu próprio governo, à política de alianças e é claro, às manobras das famíglias midiáticas.

Temos eormes problemas nessa área, e a concentração de mídias em poucos grupos, como acertadamente elencou o partido é um deles. Resta saber o que fará depois da CONFECOM, quais as "respostas" que terão da mídia oligárquica, e se essa posição, sobrevive às novas investidas anacrônicas e autoritárias.
Para recordar: Um dos mais belos momentos da televisão brasileira: O direito de resposta de um eterno perseguido pela "imprensa livre":

Em "Sum Paulo"...

Charge do Bessinha.
O José serra, corta, perfura, afunda, derruba, quebra, e ainda cobra pedágios. Depois vai vender tudo mesmo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Do Blog Classe Média Way Of Life:

Dica nº 036:


Clique na imagem para ler o texto.

Denunciar formação de quadrilha, pode acarretar em acusação de...formação de quadrilha?


Não, eu definitivamente não bebi nada hoje, nem fumei coisas estragadas. O título retrata exatamente o que ocorre na província de São Pedro. A FAG (Federação Anarquista Gaúcha) teve sua sede invadida, materias apreendidos e militantes presos, por ordem de sua majestade, a Governador Ré Yeda Crussius.
Segundo o jornal tucano Folha de São Paulo, a polícia civil do Estado, indiciou oito membros da Federação por crime contra honra, incitação ao crime e formação de quadrilha ou bando.
A quadrilha que manda no Estado, tenta incriminar um dos diversos grupos que a denuncia.
Só vendo:

Polícia Civil indicia oito por campanha contra Yeda

A Polícia Civil concluiu na última sexta-feira o inquérito que investigava a veiculação de campanha publicitária caluniosa contra a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB).

Oito integrantes da FAG (Federação Anarquista Gaúcha), que publicou cartazes publicitários com conteúdo considerado criminoso pela polícia, foram indiciados por crime contra honra, incitação ao crime e formação de quadrilha ou bando.

CPI no RS faz acareação entre ex-presidente do Detran e secretário da Administração
Gravações mostram aproximação de secretário gaúcho com investigado por fraude
Governistas rejeitam convocação de autoridades na CPI da Corrupção do RS
Yeda Crusius nomeia desembargador após lobby, diz PF

Segundo o delegado André Mocciaro, titular da 17 ª Delegacia de Polícia, a liberdade de expressão e o direito de reunião, constitucionalmente assegurados, assim como a internet, espaço mundial para livres manifestações, não podem servir de escudos e meios para prática de crimes.

A Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça, sendo apreendidos diversos materiais, inclusive as matrizes do material investigado, computadores, bem como foram adotadas providências quanto ao conteúdo publicado na internet.

Segundo a polícia, também foram ouvidos cerca de 20 representantes de diversas entidades que deflagraram neste ano campanha publicitária ofensiva contra a governadora.

sábado, 14 de novembro de 2009

Rede Globo em franca campanha eleitoral

A incareditável "reporcagem" do Jornal Nacional do dia 13/11/09, em que o casal apresentador desse afirma que o Presidente Lula e a Ministra Dilma Roussef deram entrevistas contraditórias, foi destroçada por um símples vídeo do youtube:
Confira abaixo:

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre muros e muros.

O Muro de Berlim – Mais um mito da Guerra
-Fria Dentro de poucas semanas é de esperar que muitos dos meios de comunicação ocidentais virem as suas máquinas de propaganda para comemorar o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, no dia 9 de Novembro de 1989. Serão exibidos todos os clichés da Guerra-Fria sobre O Mundo Livre vs a Tirania Comunista e será repetido o conto simples de como apareceu o muro: Em 1961, Berlim Leste, comunista, construiu um muro para impedir que os seus cidadãos oprimidos fugissem para Berlim Oeste e para a liberdade. Porquê? Porque os comunas não gostam que as pessoas sejam livres, conheçam a "verdade". Que outra razão poderia haver? Primeiro que tudo, antes de o muro ser construído havia milhares de alemães de Leste que passavam para ocidente para ir trabalhar todos os dias e depois regressavam a Leste ao fim da tarde. Portanto, não estavam obviamente a ser presos no leste contra a sua vontade. O muro foi construído principalmente por duas razões:
1- O ocidente estava a prejudicar o Leste com uma vigorosa campanha de recrutamento de profissionais e trabalhadores especializados da Alemanha de Leste, que tinham sido educados à custa do governo comunista. Isto acabou por levar a uma grave crise de mão-de-obra e de produção no Leste. Referindo-se claramente a isto, o New York Times noticiou em 1963: "Berlim Oeste ressentiu-se economicamente do muro com a perda de cerca de 60 mil trabalhadores especializados que saíam diariamente das suas casas em Berlim Leste para os seus locais de trabalho em Berlim Oeste".
2- Durante os anos 50, os guerreiros-frios americanos na Alemanha Ocidental instituíram uma campanha feroz de sabotagem e subversão contra a Alemanha de Leste destinada a fazer descarrilar a maquinaria económica e administrativa deste país. A CIA e outros serviços americanos de informações e militares recrutaram, equiparam, treinaram e financiaram grupos e indivíduos activistas alemães, do ocidente e do leste, para efectuarem acções que percorressem o espectro desde o terrorismo até à delinquência juvenil, tudo o que tornasse difícil a vida do povo da Alemanha de Leste e enfraquecesse o seu apoio ao governo, tudo o que denegrisse os comunas.
Foi um empreendimento fantástico. Os Estados Unidos e os seus agentes utilizaram explosivos, incêndios, curto-circuitos, e outros métodos para danificar centrais eléctricas, estaleiros, canais, docas, edifícios públicos, bombas de gasolina, transportes públicos, pontes, etc, fizeram descarrilar comboios de carga, ferindo gravemente trabalhadores; queimaram 12 carruagens de um comboio de carga e destruíram tubagem de ar comprimido de outros; utilizaram ácidos para danificar maquinaria fabril vital; puseram areia na turbina duma fábrica, fazendo-a paralisar; deitaram fogo a uma fábrica de telhas; promoveram greves de zelo em fábricas; mataram 7 000 vacas duma fábrica cooperativa de lacticínios através de envenenamento; acrescentaram sabão ao leite em pó destinado às escolas da Alemanha de Leste; estavam na posse, quando foram presos, duma grande quantidade do veneno cantárida que se destinava à produção de cigarros envenenados para matar importantes alemães de Leste; lançaram bombas de mau cheiro para interromper reuniões políticas; tentaram interromper o Festival Mundial da Juventude em Berlim Leste enviando convites falsificados, promessas falsas de alojamento e pensão grátis, notícias falsas de cancelamento, etc; efectuaram ataques aos participantes com explosivos, bombas incendiárias e equipamento de furar pneus; forjaram e distribuíram grande quantidade de senhas alimentares falsas para provocar a confusão, a escassez e a revolta, enviaram falsos avisos de impostos e outras orientações do governo e documentos para provocar a desorganização e a ineficácia na indústria e nos sindicatos… tudo isto e muito mais.
Durante os anos 50, os alemães de Leste e a União Soviética apresentaram queixas, repetidas vezes, aos antigos aliados dos soviéticos no ocidente e às Nações Unidas sobre actividades específicas de sabotagem e de espionagem e exigiram o encerramento dos gabinetes na Alemanha Ocidental que acusavam de serem responsáveis, e de que forneceram nomes e moradas. As suas queixas caíram em saco roto. Inevitavelmente, os alemães de Leste começaram a dificultar a entrada no país aos que provinham do ocidente. Não nos esqueçamos que a Europa de Leste se tornou comunista por causa de Hitler que, com a aprovação do ocidente, utilizou-a como a via rápida para chegar à União Soviética e varrer o bolchevismo para sempre. Depois da guerra, os soviéticos decidiram fechar essa via rápida. Em 1999, o USA Today noticiava: "Quando caiu o Muro de Berlim, os alemães de Leste imaginaram uma vida de liberdade em que os bens de consumo fossem abundantes e terminassem as dificuldades. Dez anos depois, uns espantosos 51% dizem que eram mais felizes com o comunismo".
Mais ou menos na mesma época, nasceu um novo provérbio russo: "Tudo o que os comunistas disseram sobre o comunismo era mentira, mas tudo o que disseram sobre o capitalismo era verdade".



Nota do blogueiro: O texto, extraído do sítio resistir.info, é do Historiador americano William Blum e mostra algo diferente do que vimos pelas telas da mídia corporativa brasileira, que tenta desesperadamente reescrever a História de acordos com os interesses de seus anunciantes e correligionários (há muito tempo a mídia brasileira tornou-se partido político).
No Jornal Nacional de hoje, vimos a cobertura dos festejos pela queda do Muro de Berlin, na qual o pelêgo papista polonês Lech Walessa iniciou uma efadonha brincadeira com dominós gigantes, simbolizando a queda do muro. Entrevistas com professores de história que sinceramente desconheço, mesmo sendo do meio, nas quais mencionavam o "fim da possibilidade de ideias serem incutidos à força nos seres humanos", que surgiu com a queda do Muro (A Iugoslávia, o Afeganistão e o Iraque devem concordar com isso). Nenhuma posição em defesa dos "perversos comunistas", estabelecendo, talvez até mesmo sem querer, uma relação direta com a Era em que vivemos, no Pós-Muro: A era do consenso. Algo como o descrito por Francis Fukuyama, em artigo, que depois virou livro, no qual anunciava o fim da História, a vitória de uma ideologia sobre as demais, a submissão do homem ao produto, a "coisificação" definitiva. A era do "Deus Mercado" e sua máxima sagrada: Consumam.
Não havia um contraponto na matéria Global (tudo era festa), da mesma forma como querem ocultar o contraponto ao destrutivo modelo tenazmente defendido pelo conglomerado. Criticam com muita força, ásperas palavras e imagens cuidadosamente editadas o totalitarismo comunista, e nem se preocupam em enviar para a Sibéria alguém que pense de outra forma, pois midiaticamente, graças a esses meios, elas não existem.
Com a queda do Muro não temos mais uma referência, mesmo que desvirtuada, de contraponto ao sistema de consumo de massa que tornou-se "O Mundo Real", e do qual não há alternativas possíveis, visto que essas foram enterradas sob os destroços desse, pelo menos, não uma referência tão visível, que evitasse a instauração de uma tirania mundial disfarçada, por parte do "outro lado".
Abaixo, o "control c, control v" do texto publicado no excelente blog Abundacanalha, sobre outro tipo de hipocrisia, envolvendo muros, à qual aplica-se a charge acima:
Sobre muros
A guerra fria acabou? Contraditoriamente, talvez a festa que a grande mídia internacional fará hoje para comemorar seu fim, com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1983, prove exatamente o contrário. Velhos clichês estarão de volta, embalados em belas imagens. Lembrarão que os maus comunas do lado de lá impediam seu povo de usufruir as maravilhas do mundo capitalista. Mas há vozes dissonantes, que não serão convidadas para os canapés, provando que o Fla x Flu resiste ao tempo. O historiador americano William Blum é uma delas, em artigo traduzido recentemente no Resistir cita um jornal vermelhíssimo de 1963 que aponta uma justa motivação:
"Berlim Oeste ressentiu-se economicamente do muro com a perda de cerca de 60 mil trabalhadores especializados que saíam diariamente das suas casas em Berlim Leste para os seus locais de trabalho em Berlim Oeste"
O jornal é um tal de New York Times, que assim relatou o incômodo de um estado que investia pesadamente em educação e via surgir uma crise com a perda de seu investimento.
Mas claro, há sempre o “mas”. O muro também servia para impedir que os comunistas fossem ao outro lado comer criancinhas. Temos que lembrar.
Particularmente, continuo achando muita hipocrisia comemorar a queda de um muro quando o mundo, dito “livre”, construiu tantas muralhas nesses últimos anos:
Muro construído pelo Egito na fronteira com Gaza.

Muro construído pelos EUA na fronteira com o México. Mais ótimas fotos aqui.

Muro construído pela prefeitura do Rio de Janeiro na favela Dona Marta.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sacco e Vanzetti.

Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, foram dois imigrantes italianos, anarquistas, executados em 23 de agosto de 1927, nos Estados Unidos da América, injustamente acusados de assalto e assassinato.
Mesmo com evidências contundentes de sua inocência, como o cartão ponto de Nicola Sacco, o testemunho de funcionários da representação diplomática italiana, que comprovou sua visita, na tarde do crime, a confissão do português Celestino Madeiros, que afirmou ter participado da ação pela qual foram condenados os anarquistas, Sacco e Vanzetti foram assassinados.
Durante um período de intensas manifestações xenófobas, praticadas pelo próprio governo (deportações em massa, prisões arbitrárias, torturas e assassinatos), a caça às "bruxas vermelhas" tomou forma de execução política nesse famoso caso, que mobilizou a opinião pública internacional em prol dos acusados (protestos, muitos violentos em toda a Europa, Argentina, Brasil, países asiáticos e nos Estados Unidos). No ano de 1977, Sacco e Vanzetti foram reabilitados, por decisão do Governador de Massachussets Michael Dukakis, em decisão queos considerou inocentes, condenados por um julgamento parcial.
A execução política, praticada por um ente federado, da maior potência econômica do planeta, foi retratada no brilhante filme "Saco e Vanzetti", de 1971, dirigido por Giuliano Montaldo, com a brilhante trilha sonora do mestre Enio Morricone. A canção título é interpretada por Joan Baez. O filme esteve proibido no Brasil, por vários anos, pela censura da Ditadura Militar.
Abaixo, a bela obra de Morricone para o filme, baseada em um trecho de uma carta, de Nicola Sacco, na qual despede-se de seu filho. A carta pode ser lida aqui, em espanhol (11).


Lembrei-me desse caso, e do excelente filme produzido, ao ler a seguinte denúncia, publicada no blog RS URGENTE:

A Federação Anarquista Gaúcha envia a seguinte nota:
Neste exato momento a Polícia Civil do Rio Grande do Sul sob o comando da governadora Yeda Crusius promove diligência na sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). O mandado de segurança do governo busca apreender material de propaganda política contra o governo acusado de corrupção. Os cartazes abordam o empréstimo junto ao Banco Mundial e o assassinato do sem-terra Elton Brum. Este ato é pura provocação do Executivo gaúcho, atravessado por atos de corrupção e situações até hoje sem explicação, como a morte de Marcelo Cavalcante em fevereiro desse ano. Conclamamos as forças vivas da esquerda gaúcha para reagirmos de forma unificada contra mais esse desmando.
Segundo o mesmo relato, militantes da Federação Anarquista foram encaminhados, agora à tarde, para depor na 17 Delegacia de Polícia, localizada na rua Voluntários da Pátria, 1500, perto da Rodoviária de Porto Alegre. A Polícia apreendeu material impresso, chapas de cartazes e inclusive a CPU do computador da sede. Diante disso, a Federação Anarquista afirma:
“Era de se esperar uma reação como essa, em função da FAG sempre haver atuado com modéstia, mas tenacidade, sendo das mais aguerridas em todas as circunstâncias na defesa dos interesses e objetivos estratégicos do povo gaúcho. Vamos fazer uma denúncia pública e provar para as classes oprimidas do RS a natureza desse ataque vil sob ordem de um governo acusado dos mais graves crimes”.
Conversei por telefone com Cândida, militante da Federação Anarquista, e ela me deu o seguinte relato. A Polícia entrou na sede da Federação (na rua Lopo Gonçalves, Cidade Baixa), hoje à tarde, munida de um mandado de busca e apreensão para recolher material de propaganda contra a governadora Yeda Crusius, que decidiu mover uma ação por injúria, calúnia e difamação. A ação teria sido motivada por cartazes onde a governadora é responsabilizada pelo assassinato do sem terra Elton Brum da Silva. Além dos cartazes, segundo Cândida, foram apreendidos outros materiais e documentos que não tem relação com esse caso. Também foi cumprido um mandado de busca e apreensão em Gravataí, em um endereço que aparece no site da entidade. Há dois advogados acompanhando os integrantes da Federação.

Nota do blogueiro: A linha político-policialesca que culminou na prisão, no julgamanto temerário, e na execução sumária dos militantes Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, encontra eco no estado do Rio Grande do Sul, e no governo intolerante e corruto lá instalado.

Anarquistas presos, em 1929 por serem anarquistas, hoje, por serem anarquistas e protestar contra os desmandos e a roubalheira no Estado, em um atentado ao estado de direito.

O filme "Sacco e Vanzetti", está disponível para download nos links abaixo. no formato rmvb, em seis partes:

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Para a América Latina nada mudou

Política do "big stick" ganha nova base. Agora os golpes podem ser preparados na Colômbia.

Em pouco mais de um século (1846 a 1996), os Estados Unidos patrocinaram mas de 85 intervenções em diversos países da América Latina. Desde golpes de estado, passand por manipulações eleitorais, favorecimento financeiro a grupos de direita e extrema direita, até a invasão armada, propriamente dita.

Situações extremas como o do México, que perdeu um terço de seu território, da Nicarágua que sofreu 5 invasões em sete anos (1850-1857), Cuba, que teve uma emenda à sua constituição eleborada por um Senador estadunidense, permitindo a invasão "legal" do país, caso surgisse algum cenário desfavorável ao comércio entre os dois países, o massacre em El Salvador, e a imensa lista de países que tiveram governantes legítimos expurgados por vilentas ditaduras civil-militares apoiadas por esses apoiadas (Brasil, Nicarágua, Chile, México, Haiti, Uruguai, Argentina, Guatemala, Costa Rica, Bolívia, Equador, Republica Dominicana, Granada e recentemente o fracasso da tentativa na Venezuela). A lista de atrocidades, intervenções, guerras, invasões, golpes de estado, "derrames de dólares" é imensa, e ficou marcada com o sugestivo nome de política do Big Stick (grande porrete).

Muitos analistas deram como encerrada essa fase, mas a recente tentativa de golpe na Venezuela, a reativação da quarta frota, e a instalação de bases militares na Colômbia, reavivam a "sombra do porrete".

O pretexto é o mesmo de sempre, combate ao narcotráfico, mas os próprios protagonistas revelam o que querem com as bases, e, obviamente, com a Quarta Frota:

*Chávez é motivo para ter base na Colômbia, afirma Pentágono.

FLÁVIA MARREIRO da Folha de S.Paulo

Ao assinar o acordo militar com a Colômbia e garantir o uso da base área de Palanquero, no centro do país, o governo dos EUA considera ter aproveitado uma "oportunidade única" de obter "acesso e presença regional a custo mínimo" numa área sob ameaças constantes, entre elas as vindas de "governos antiamericanos" como o do venezuelano Hugo Chávez.

O argumento acima consta do documento do Pentágono submetido ao Congresso americano para justificar o Orçamento militar do país no ano fiscal de 2010. O texto, sancionado recentemente pelo presidente Barack Obama, inclui verba de US$ 46 milhões a ser aplicada em Palanquero.O documento solapa a retórica de Washington e Bogotá, que repetem o mantra de que o pacto militar assinado na sexta-feira --que permitirá aos EUA usar outras seis instalações além de Palanquero-- visa atacar só problemas domésticos colombianos, e dá combustível às reclamações de Chávez, que vê no trato uma ameaça a seu país. Tudo isso num momento em que a tensão entre Bogotá e Caracas volta a crescer por conta de incidentes na divisa cada vez mais violenta.

O teor do acordo militar não foi divulgado --a Colômbia promete fazê-lo nesta semana. Só Chávez e Evo Morales (Bolívia) reclamaram de sua consumação. O governo Lula, que cobra "garantias" de Washington e Bogotá, não se pronunciou.

Em entrevista ao jornal colombiano "El Tiempo", o embaixador americano em Bogotá, William Brownfield, disse que seu governo já deu garantias aos países da região de que o acordo não permite operações conjuntas fora da Colômbia. "Posso dizer que o acordo diz [isso] claramente no artigo 4º, parágrafo 3º.

"No entanto, na avaliação do Conselho de Estado, o órgão jurídico consultivo máximo colombiano, o texto é frouxo e deixa decisões importantes para acertos posteriores, além de ser "desequilibrado" a favor de Washington e potencialmente violador da soberania do país.

Resposta a crises

O documento do Pentágono submetido ao Congresso diz que Palanquero é "inquestionavelmente" o melhor lugar "para conduzir um completo espectro de operações pela América do Sul" --a importância da base já havia aparecido em documento da Força Aérea, que a inclui no esquema global de rotas para transporte estratégico global de carga e pessoal.

Afirma que o investimento na base vai "melhorar a capacidade dos EUA de responder rapidamente a crises, assegurando acesso e presença regional com custo mínimo". Contribuirá também para "expandir capacidade de guerra aérea", inteligência e monitoramento.

*Texto extraído do blog do Aposentado Invocado

Parece que nada vai mudar, para a América Latina, mesmo com a eleição de Obama. Continuaremos sujeitos a política externa deles (descrita acima), a menos que tenhamos "mais Venezuelas".

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Solução Demo-Tucana para a área dos transportes...

De São Paulo para o resto do Brasil:

A solução é aumentar o número de helipontos.

Desregulamentar sua utilização.

Deixar o "faze o que tu queres burguesão" imperar nos céus tupiniquins.

Dizem as más línguas que depois vão reduzir o IPI do novo transporte de "massa".

Texto extraído do Site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim (que tem mais leitores que a veja):


Na foto, o transporte de massa dos demo-tucanos chuiçais
Kassab ameniza projeto para autorizar helipontos
JOSÉ ERNESTO CREDENDIOda Folha de S.Paulo
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) vetou o artigo do projeto aprovadopela Câmara que restringia o funcionamento de helipontos privados aoperíodo das 7h às 20h em São Paulo. Ele estabeleceu um horário mais flexível, das 6h às 23h.
Kassab deve vetar restrição a helipontos e voos em SPVereadores proíbem helicópteros à noite em SPRegião da rua Funchal tem mais helipontos que pontos de ônibus
Kassab regulamentou a implantação dos pontos de pouso de helicópteros,que ainda não tinha legislação municipal específica, ao sancionar(transformar em lei) o projeto do vereador Chico Macena (PT).
Há hoje cerca de 320 helicópteros registrados em São Paulo, que tem215 helipontos autorizados pela Anac (Agência Nacional de AviaçãoCivil). Do total, somente 85 já contam com a licença da prefeitura.
Em alguns casos, dependendo da localização do heliponto, a prefeiturapoderá tornar o horário das operações mais restritivo, ao conceder alicença.
Também foi vetado o dispositivo do projeto que proibiria pilotos depermanecer sobrevoando o mesmo local por mais de 30 minutos. Kassabretirou ainda a proibição do funcionamento a menos de 500 metros deestabelecimentos como hospitais e escolas.
A distância caiu para 300 metros, mas ficam livres da restrição ospontos de pouso destinados a hospitais, polícia e Forças Armadas e assedes dos governos municipal e estadual.
O comandante Jorge Bitar Neto, dono de empresa de taxi aéreo em SãoPaulo, afirma que, caso haja muitos helipontos fechados, pode aumentaro volume de tráfego nos regulares. “Os que sobrarem irão receber umacarga enorme de pousos, por serem únicos.”
Em relação aos helipontos já instalados, a lei prevê que os donosdevem comprovar sua regularidade em 30 dias, a partir de sábado. Oruído máximo permitido é de 95 decibéis.
(*) Chuíça é o que o PiG (***) de São Paulo quer que o resto do Brasil ache que São Paulo é: dinâmico como a economia Chinesa e com um IDH da Suíça.
(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele acha da investigação, da “ditabranda”, do câncer do Fidel, da ficha falsa da Dilma, de Aécio vice de Serra, e que nos anos militares emprestava os carros de reportagem aos torturadores.
(***) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

domingo, 25 de outubro de 2009

Privatizou e deu errado: A culpa é do Estado.

Segue texto comentando mais essa extraordinária visão anti-estatal-tresloucada do grupo RBS. Texto e imagem extraídos do blog O Partisan:



Saudades do neoliberalismo

Hoje, o principal jornal do grupo RBS nos brindou com mais um editorial saudosista do projeto neoliberal. O sucessivos escândalos envolvendo o DETRAN gaúcho, obrigaram o Grupo RBS a reconhecer que a privatização do DETRAN, ocorrida no governo Britto com o seu explícito apoio, gerou enormes prejuízos à sociedade, com desvios que podem chegar a R$ 30 milhões ano. Uma verdadeira fortuna que saiu do bolso de todos os gaúchos. Importante registrar que a privatização dos serviços do DETRAN foi adotada apenas no RS e em um outro estado da federação.

Mas o editorial não faz autocrítica nem dá seu projeto político por derrotado. Afirma categoricamente que "a sitaução somente chegou a esse ponto, porém, não pelo fracasso do modelo de terceirização, mas pela incapacidade ou falta de vontade do poder público de enquadrar os prestadores de serviço dentro de parâmetros razoáveis de preço e de seriedade no uso dos recursos oficiais". Faltou indicar em qual setor esse modelo deu bons resultados, citar um único exemplo. Realmente, é forçoso reconhecer, seria uma tarefa díficil. Todas as experiências tentadas geraram tarifas excessivas, serviços ineficientes, corrupção na relação entre o poder público e o privado, abusos e falta de regulação (vide concessionárias de rodovias).

Apesar disso, a conclui o grupo RBS que "infelizmente, o serviço público tem se caracterizado pela ineficiência. O caminho ideal, para conjugar moralidade e eficiência, certamente não é o Estado. É, sim, uma parceria responsável, adequadamente fiscalizada, com prestação de contas à sociedade de forma permanente".

O grupo RBS parece não ter ou não querer tirar lições dos acontecimentos dos últimos anos, preferindo adotar a velha cantilena do Privado X Estatal que marcou os tempos da guerra fria. Um pensamento arcaico, que não se modernizou e, certamente, cobrará um preço caro desse grupo de comunicação.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Dããããããããã...

O vídeo abaixo, mostra uma das inúmeras entrevistas do porta voz, digo, Presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, dessa vez ao programa É Notícia, na Rede TV. Mendes afirma que libertou Daniel Dantas duas vezes em menos de 48 horas para, pasmem, "preservar Estado de Direito, a Democracia", evitar o que definiu como um "Golpe de Estado", proferido pelo delegado Protógenes Queiroz e centenas de juízes, que foram desqualificados como a banda "B" do judiciário e a Polícia Federal "do B".
Se tiverem paciência de ouvir muitos "é, pois é, não, não, não, não foi bem assim, acho que, penso que, talvez possa..." assistirão ao que Paulo Henrique Amorim definiu como a "crise logorréica do Supremo Presidente Gilmar Dantas".



Caberia uma última pergunta: "O senhor fumou "algo estragado" antes dessa entrevista"?

Consumidores são culpados pela sonegação de empresas...

É incacreditável, mas essa afirmação foi publicada por um conhecido jornal, de uma conhecida rede, do sul do país.
Clique aqui para ler.

“Rejeito heróis com as mãos banhadas em sangue”

Para a polícia de um Estado que executa um trabalhador que protesta, que reinvindica, que espanca trabalhadores em greve, cidadãos descontentes com seu governo, persegue o cantor que narra os fatos, tortura fisica e psicologicamente cidadãos, em nome da pseudo-segurança de outros, o texto abaixo deve ser um golpe imenso.
Para os partidários do "olho-por-olho político", da psicopatia dos muros, grades, cercas elétricas, cães treinados para odiar pobres, câmeras, arame farpado, segurança privada (jagunços do século XXI), deve ser ainda pior.
Para todos os que acreditam que segurança é uma questão política, de decisões políticas, e que essas geram situações de conflito-econômico-social, o texto é um alento. Ainda há indignados:

“Rejeito heróis com as mãos banhadas em sangue”

Por Antonio de Oliveira (*)

Texto extraído do blog RS Urgente

Ouvi, assisti e li tudo. Demorei alguns dias tentando deglutir. Não consegui. A frieza do oficial da Brigada Militar dizendo que naquele dia tinha acontecido uma vitória da sociedade, de dois a zero, me deixou desajeitado. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma constatação: sou contribuinte e pago o salário dele.
Daí para a frente, logo me vieram inúmeras dúvidas, se a minha contribuição ao Estado estava sendo bem empregada naquele caso em que um oficial comemorava a morte de dois seres humanos. E o turbilhão de dúvidas aumentou. Ele falava em vitória da sociedade. Mas que vitória ? Mas que sociedade ?
O saltitante “repórter”, na imagem da TV, parecia comandar um show, gritava que o agente penitenciário que tinha assassinado os dois homens era o herói do dia, que merecia medalhas. Meteu, com sua pouca prática, o microfone no rosto do agente, quase aos gritos, reafirmando que ele era um herói. Mas o que aparecia na tela era um homem grande, forte, mas apequenado, imensamente constrangido. Perturbado por ter tirado a vida de duas pessoas.
- …sim, foi a primeira vez”, disse o herói num fio de voz.
Ele nem sabia o que responder diante da provocação do “repórter” que andava em volta, sem saber o que fazer para melhorar seu espetáculo, seu show. Só faltou reclamar dos atores por não estarem correspondendo em suas interpretações. Ele queria mais ação. Mais sangue. Ao bom estilo bandido bom é bandido morto, a câmera corria a toda hora, bem de vagar, sobre os cadáveres dos dois homens abatidos no meio da rua.
Ainda bem que um policial civil, assustado, foi ao microfone e fez uma correção, dizendo que aquilo tudo ali era um péssimo exemplo, que as pessoas não deveriam agir daquela maneira em caso de assalto, que o agente fizera aquilo por que era um homem preparado, com curso para condução de prisioneiros de alta periculosidade.
E na minha cabeça vieram mais indagações: mas que herói ? Dois corpos estendidos no chão era uma vitória da sociedade ? Definitivamente, não. No meu entender era uma irreparável derrota. Era a mostra cabal de uma sociedade derrotada como tal. Sem solução para os seus problemas.
A não ser que eu entenda que aqueles dois não faziam parte da sociedade e que aquele oficial também não faz parte, está acima, como guardião e juiz de quem deve ser morto para que outros vivam em paz na tal sociedade, que ele tem dentro da sua cabeça, da sua cachola.
Como integrante da sociedade, se é que me permitem, eu rejeito vitórias deste tipo, porque eu não consigo ser feliz assim. Não quero que ninguém morra para que eu esteja seguro. E também não quero matar ninguém. Ou então esta sociedade, como está, não me serve mais. Mas ai, eu estaria desistindo da humanidade e isto eu também me nego a fazer.
Sendo assim, o que me resta é apelar às representações da sociedade, aos políticos e aos governantes para que abram o olho. Vejam o que está acontecendo na frente dos seus narizes e tomem atitudes e apliquem melhor, em favor da sociedade, o que recolhem de impostos. E não quero que comparem com Nova Iorque, etc, etc. Quero que comparem com o Brasil, com Porto Alegre, de meio século atrás. Só. Lembrem de como vivíamos há 50 anos, criem vergonha na cara e vão trabalhar.
Parem de empurrar com a barriga. Assumam imediatamente a construção de um sistema educacional decente, que ponha todas as crianças na escola e que forme cidadãos e não bandidos. Mandem às favas esta gente que vive defendendo o Estado mínimo, pois eles são os primeiros a assaltar o Estado quando seus negócios vão mal. Formem uma polícia de verdade para defender todos os cidadãos, sem necessidade de andar matando por ai para virar herói. Repudiamos heróis feitos assim.
Acima de tudo, parem de roubar, de serem corruptos, e empreguem o dinheiro público para o bem público. E façam as emissoras de rádio e de televisão cumprirem a Constituição, como concessões que são, com programação para uma sociedade decente, equilibrada.
É hora de o Estado entrar em campo para garantir uma vitória verdadeira. E um recado final ao meu oficial: pare de defender a morte como vitória, como solução para os problemas que o senhor está despreparado para resolver. E quero lembrá-lo de que, no Morro dos Macacos, no Rio, no momento em que encerro este texto, a sociedade está obtendo uma vitória por 25 a 8. O senhor está feliz com isto ? Com esta vitória ? Pois eu não quero heróis com as mãos banhadas em sangue.

(*) Jornalista

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Charge do kayser


Extraída do blog do companheiro Júlio Garcia:

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O golpe da pesquisa que quer equivaler-se a um recenceamento

Tive a oportunidade de trabalhar no IBGE, durante a realização do censo agropecuário 2006. Exercia a função de supervisor, e como tal, pude verificar, em campo, a forma como os dados foram coletados.
A verificação foi feita em todos os estabelecimentos agropecuários. Não houve compilação de dados por amostragem.
O resultado só poderia ser o mais fiel retrato da realidade desses, da forma como foi amplamente divulgado em todos os meios de comunicação do país.
Poucos dias após a divulgação desses dados, que apontaram a agricultura familiar como responsável por 75% da produção de alimentos no país, uma pesquisa, por amostragem, encomendada pelo CNA (Confederação Nacional da Agricultura), junto ao IBOPE, revela dados totalmente diferentes.
O interessante nisso, foi a tentativa de equiparar as duas pesquisas: O censo do IBGE, entrevistando a totalidade dos produtores, com uma amostragem distorcida, de um universo de 1000 entrevistados, que acabou por anunciar a supremacia do agronegócio sobre a agricultura familiar.
Mil entrevistas valendo o mesmo que a totalidade dos dados coletados, já é um enorme contracenso.
O mais interessante, é quando paramos para comparar os números do IBGE com o resultado da pesquisa do IBOPE. Foi o que fez Flávio Luiz Sartori, em seu blog, no texto que reproduzo abaixo:

ANALISE DOS NÚMEROS DA PESQUISA IBOPE / CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA
Desde o primeiro momento em que ouvi a notícia ontem à noite sobre essa pesquisa do IBOPE para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, com alguns resultados, fiquei pensando comigo mesmo em silêncio: "Só pode ter manipulação na amostragem para ser possivel chegar a um resultado como esse, até quando a opinião pública, ou melhor, ainda parte significativa dela, será enganada?"
Durante o dia de hoje arrumei o tempo que não tenho porque sou um trabalhador a procura de um lugar melhor ao sol e fui a procura, primeiro do relatório completo dessa pesquisa IBOPE/CNA, depois dos números do IBGE referentes ao Censo Agropecuário de 2006 no item sobre a Agricultura Familiar, de acordo com a Lei 11.326, que estabelece os princípios e instrumentos destinados à formulação das políticas públicas direcionadas à Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais.
De acordo com estatisticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísca, o IBGE, no qual eu ja tive a honra de trabalhar em censos, a quantidade de estabelecimentos da Agricultura Familiar em 2006 por Região do Brasil é a seguinte:
De acordo com o Relatório JOB 1221 do IBOPE da Pesquisa de Opinião Pública Sobre Assentamentos Rurais realizada para a CNA, as cotas de entrevistas por Regiões do Brasil foram as seguinte:
Como se pode observar a manipulação dos números é descarada, logo de cara se vê que a pesquisa não entrevistou nenhum assentado na Região Sul do Brasil, que históricamente tem um dos melhores padrões de vida no Brasil. Por outro lado foram feitas 25% das entrevistas na Região Norte, enquanto que pelos números do IBGE esta região tem peso de 9,5% no total de assentados do Brasil. Também foram entrevistados 35% de assentados nordestinos, enquanto que a Região tem peso, de acordo com números de IBGE de 50,1% de assentados e para encerrar, foram entrevistados 22,5% de assentados pelo IBOPE na Região Centro Oeste, enquanto que ela tem peso de 5% de assentados em relação a todo Brasil. A única Região onde os números ficaram próximos foi a Sudoeste com 16% de assentados pelos números do IBGE e 17,5% de entrevistas do IBOPE.
De acordo com números do IBGE de 2006, as estatísticas da agricultura familiar por estado são as seguintes:

O IBOPE realizou entrevistas nos seguintes estados com os seguintes números, de acordo com seu próprio relatório:

Fiz questão de detalhar os números por estado para completar o trabalho, se você meu caro internalta quizer ter acesso as tabelas do IBGE é só acessa ao seguinte endereço:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Agropecuario_2006/
Os números estão sem os cálculos por porcentagem, que foram trabalhados mim mesmo, mas são os mesmos, basta abrir as tabelas e conferir.
Não existe na página do IBGE nenhum número posterior aos dados do Censo Agropecuário de 2006, depois, os números de assentamentos feitos até 2008 não ultrapassam as diferenças registradas nesta analise.
Voces também poderão acessar ao relatório do IBOPE na no seguinte endereço do CNA:
http://www.canaldoprodutor.com.br/noticias/confira-os-resultados-da-pesquisa-ibope-nos-assentamentos-rurais-consolidados-da-reforma-ag
LEIAM E TIREM SUAS CONCLUSÕES PARA O BEM DO BRASIL.

Mais sobre a evidente manipulação pode ser visto aqui e aqui.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Do Conversa Afiada

O método tucano de reduzir a criminalidade:
Fechar as delegacias, assim não há registros:
Texto de Paulo Henrique Amorim:

Deu no Diario de São Paulo:
São Paulo inicia hoje plantão nas delegaciasdos 25 distritos só 7 vão registrar ocorrências
E veja o e-mail enviado pelo amigo navegante Ernesto Gusmão:
PHA,OJosé Pedágio quer também acabar com a criminalidade em São Paulo (principalmente na periferia). E para isso ele teve uma idéia genial: diminuir a quantidade de delegacias fazendo plantões nos finais de semana e feriados. O que diminue, consequentemente, o número de BOs registrados. É um gênio!!!Confira a notícia em http://br.noticias.yahoo.com/s/13102009/25/manchetes-dps-farao-bo-nas-zonas.htmlDessa forma a Secretaria de Segurança Pública não mais precisará passar pelos sucessivos vexames toda vez que tem que publicar os números da criminalidade em São Paulo.
Assim é fácil: vai cair drasticamente o número de BOs.
Ele é um gênio.
Paulo Henrique Amorim
(*) Chuíça é o que o PiG (**) de São Paulo quer que o resto do Brasil ache que São Paulo é: dinâmico como a economia Chinesa e com um IDH da Suíça.
(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Saída à inglesa.

Não se sabe ao certo qual a origem da expressão "Saída à Francesa", que tem sua versão genérica utilizada pelos franceses. Atribui-se seu uso, pela primeira vez ao exército inglês, durante a Guerra dos Sete Anos, mas até hoje não se sabe ao certo. Mas seu significado pode ser resumido pelo tradicional "sair de fininho", pela tangente.
Utilizo-me da expressão, voltada aos ingleses, cujo primeiro ministro, Gordon Brown, teve de utilizar-se de uma saída estratégica, para não sofrer desgastes maiores, após ser acusado de utilizar-se de verba públicas, em benefício próprio, fazendo melhorias, ou pagando a serviços prestados em sua residência particular com dinheiro público.
Na prática, não houve crime algum, uma vez que gastos com a residência e a manutenção dos representantes, estão previstos nas leis daquele país.
Ainda assim, sucessivas reportagens, mostrando os gastos com faxineiras, jardineiros, tv à cabo, filmes pornográficos... levaram Brown e parte de seu governo, a pedirem desculpas públicas e a devolverem o dinheiro, cuja quantia foi levantada por uma auditoria independente.
Saída à inglesa: Pedir desculpas ao público e devolver o dinheiro utilizado de forma indevida.
Agora vejamos a "saída à tucana" do governo do Estado do Rio Grande do Sul:
A governadora Yeda Rorato Crusius, ré em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal, após investigação da Polícia Federal, alvo de duas CPIs e de um pedido de impedimento, com o mais baixo índice de aprovação do país e a maior rejeição, decidiu trocar alguns móveis e utensílios de sua mansão, adquirida de forma suspeita.
Os móveis e utensílios, foram adquiridos com dinheiro público, conforme notas fiscais emitidas pelas lojas "Tok e Stok" (imagem abaixo). Foram adquiridos móveis para dormitórios, colchões, armários e, pufs.
Pufs. O Estado do Rio Grande do Sul, no auge da maior criese política de sua história, adquire pufs para a casa da governadora.
Quando a história vaza, escorre e chega até o povão, surge a "saída à tucana":
"O deputado Coffy Rodrigues (PSDB) reconheceu hoje que móveis comprados com dinheiro público foram para os quartos dos netos da governadora Yeda Crusius. O deputado garantiu que há legalidade na ação e acredita que o caso é compreensível. "Eu pergunto para qualquer vovó que more junto com os netos, se viesse a se eleger à governadora do Estado, e viesse a morar dentro do Palácio Piratini, não teria que comprar uma cama para o neto? Ou iria colocar o neto para dormir no chão? É a mesma coisa", afirmou." (do jornal Correio do Povo)
Quase chorei. E aposto que os netos da governadora, que estão sendo usados para atingir jornalistas do RS com processos, não estavam dormindo no chão, e muito menos que o povo gaúcho queria pagar a conta. Pagar os pufs.
Mas eles não ficam nem vermelhos!
Saída à tucana: Mandar o séquito defender a aquisição, de qualquer forma. E dane-se o resto.

Sobre laranjas e mentiras.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o economista e líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, João Pedro Stédile fala sobre a ocupação de um laranjal de propriedade questionada, mas dada pela grande mídia como pertecenente ao grupo Cutrale, bem como da manobra que tenta criar uma CPI já derrotada no Congresso, comissão que segundo ele, tem conotações eleitoreiras.
Chamo a atenção para o formato das questões formuladas pelo empregado da Folha, em especial à primeira, que inicia por um clássico "Independentemente da situação da propriedade", ou seja, "Independentemente do fato, vamos às nossas conjecturas"...
Copiei essa entrevista do sítio Vermelho:
João Pedro Stedile fala em entrevista sobre caso do laranjal
João Pedro Stedile, 55, da direção nacional do MST, afirma que o movimento não perdeu o foco, que condena todo o tipo de "vandalismo" e que o presidente Lula está "mal informado", numa referência à declaração do petista na qual chamou exatamente de "vandalismo" a ação do movimento numa área de plantação de laranja no interior de São Paulo. Em entrevista à Folha Stedile minimiza a derrubada dos pés de laranja na área da Cutrale, pois, segundo ele, a produção seria destinada à exportação, e não para a mesa dos brasileiros.

FOLHA - Independentemente da situação da propriedade [o Incra diz que está ocupada de forma irregular, o que é negado pela empresa], a ação chama a atenção pela destruição deliberada de alimentos. Foi um erro destruir aqueles pés de laranja? JOÃO PEDRO STEDILE - O fato de a área ser grilada, confirmado pelo Incra, não é algo secundário. Esse é o fato. Um dos princípios que o MST respeita é a autonomia das famílias de nossa base. A distância, a população pode achar que derrubar pés de laranja foi uma atitude desnecessária. A direita, por meio do serviço de inteligência da PM, soube utilizar [as imagens] contra a reforma agrária, se articulando com emissoras de TV para usá-las insistentemente. Nunca essas emissoras denunciaram a grilagem nem a superexploração que a Cutrale impõe aos agricultores.

FOLHA - Ao destruir alimentos, o MST não teme perder o apoio das camadas mais pobres da população, como das 12 milhões de famílias que dependem do Bolsa Família para comprar sua própria comida? STEDILE - Cerca de 98% da produção de suco no pais é exportada. Esse suco não vai para a mesa dos pobres, com ou sem Bolsa Família. Já o nosso modelo para a agricultura brasileira quer assegurar produção de alimentos, a geração de emprego e renda no meio rural. Queremos produzir comida e, inclusive, suco de laranja para chegar à mesa de todo o povo brasileiro. Não para o mercado externo. Mesmo assim, a área de exploração da laranja [no país] diminuiu em 400 mil hectares nesses dez anos, pela exploração que a Cutrale impõe aos agricultores.

FOLHA - O presidente Lula chamou a ação de "vandalismo". O MST ainda o enxerga como aliado? STEDILE - Nós também condenamos o vandalismo. Usar 713 milhões de litros de venenos agrícolas por ano, que degradam o meio ambiente, também é vandalismo. Nesse caso, o presidente está mal informado, pois as famílias acampadas nos disseram que não roubaram, não depredaram nada. Depois da saída deles e antes da entrada da imprensa, o ambiente foi preparado para produzir imagens de impacto. Propomos que uma comissão independente investigue a verdade.

FOLHA - É correto hoje dizer que a conjuntura nacional, principalmente de estabilidade econômica e de assistência oficial aos pobres do país, é desfavorável ao MST? STEDILE - Os dados do censo [agropecuário] revelam que menos de 15 mil latifundiários são donos de mais de 98 milhões de hectares. A renda média dos assalariados do campo é menor que um salário mínimo. Diante disso, reafirmamos que é fundamental democratizar a propriedade da terra, como manda a Constituição, e mudar o modelo agrícola, para priorizar a produção de alimentos sadios para o mercado interno. Quem acha que a reforma agrária não é necessária está completamente alheio aos problemas e aos interesses do povo.

FOLHA - Essa conjuntura deixa o MST sem foco? STEDILE - Ao contrário. Nunca foram tão necessárias essas mudanças. Bancos e empresas transnacionais controlam a agricultura. E, quando ocupamos uma terra para pressionar a aplicação da reforma agrária, enfrentamos todo esses interesses. O Brasil precisa de um projeto que combata as causas da desigualdade social e garanta o acesso a terra, educação, moradia e saúde a todos, e não apenas a uma minoria.

FOLHA - Algum nome para as eleições de 2010 anima o movimento? STEDILE - O MST preserva sua autonomia. Nossos militantes participam das eleições como qualquer cidadão. Infelizmente, cada vez que chega o período eleitoral, a direita se assanha para enquadrar as candidaturas contra o MST e a reforma agrária. Esse pedido de CPI tem apenas motivação eleitoral. O [deputado Ronaldo] Caiado [líder do DEM na Câmara] confessou que o objetivo da CPI é provar que o governo repassa dinheiro para o MST fazer campanha para a Dilma [Rousseff], o que é ridículo.

Publicado na Folha de S. Paulo de 12/10/2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ficam escandalizados com a destruição de dois hectares de laranjal, mas e o passivo histórico do latifúndio?

A destruição de dois hectares de um laranjal, plantado em extensa área pública da União ocupada ilegalmente por uma grande empresa privada, orquestrada pela mídia e pelos interesses do agronegócio, escandaliza.Enquanto isso, milhares de famílias estão acampadas em beira de estradas, trabalhadores são escravizados em pleno século 21 e trabalhadores rurais, líderes sindicais, religiosos e advogados são assassinados no Brasil.

Mas isso não escandaliza.

Milhares de processos estão travados na justiça emperrando as desapropriações para fins de reforma agrária e deixando sem solução os crimes do latifúndio e de sua pistolagem.

Mas isso não escandaliza.

As denúncias sobre casos de trabalho escravo contemporâneo atingem um recorde histórico no Brasil, de acordo com o relatório "Conflitos no Campo no Brasil 2008", elaborado pela Comissão Pastoral da Terra, que registra 280 ocorrências no ano passado. Ao todo, os casos relatados pela CPT envolveram sete mil trabalhadores, 86 deles crianças e adolescentes, tendo havido 5,2 mil libertações.

Mas isso não escandaliza.

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, de 1995 a 2002, a Fiscalização do Trabalho do ministério realizou 177 operações em 816 fazendas, lavrando-se 6.085 autos de infração. Já no período de 2003 a 2008, foram realizadas 607 operações, envolvendo 1.369 fazendas fiscalizadas, onde foram lavrados 16.981 autos de infração, o que significa um incremento anual de 272,1% em relação ao período anterior.

Mas isso não escandaliza.

O recorde nas denúncias foi acompanhado da intensificação da ação fiscalizadora do governo federal, que declarou a erradicação e a repressão ao trabalho escravo contemporâneo como prioridades do Estado brasileiro. O Plano prevê a aprovação da PEC que altera o art. 243 da Constituição Federal, dispondo sobre a expropriação de terras - sem indenização - onde forem encontrados trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão e que, em muitas situações, tentam fugir da fazenda e são impedidos pelo fazendeiro. Mas os ruralistas escravocratas reagem e impedem a sua aprovação pelo Congresso Nacional.

Mas isso não escandaliza.

Ideólogos do agronegócio escravocrata tentam explicar o injustificável, chegando a afirmar que "o principal objetivo desse trabalhador em eventual fuga da fazenda e posterior retorno trazendo a fiscalização trabalhista não seria apenas evitar o pagamento da dívida contraída com o empreiteiro, mas, talvez muito mais importante, receber a ‘multa’ de vários milhares de reais, comumente imposta pelo fiscal ao agricultor e em favor do trabalhador, sob a acusação de prática de ‘trabalho escravo’ por parte do fazendeiro. Além disso, os trabalhadores ‘libertados’ passam a receber seguro desemprego, sendo possível que, depois, passem a receber também Bolsa Família".

Mas isso não escandaliza.

Após mais de século da assinatura da Lei Áurea, o Brasil ainda convive com as marcas deixadas pelo regime colonial-escravista e por disparates escritos por seus neoideólogos. Conforme apresentação do Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, de 2003, assinada pelos então ministros Nilmário Miranda (Direitos Humanos) e Jacques Wagner (Trabalho e Emprego), "a escravidão contemporânea manifesta-se na clandestinidade e é marcada pelo autoritarismo, corrupção, segregação social, racismo, clientelismo e desrespeito aos direitos humanos".

Mas isso não escandaliza.

Apesar do grande aumento da produção agrícola de 1975 para cá, os ruralistas tentam impedir a atualização dos índices de produtividade da terra para fins de reforma agrária e ameaçam o governo e os sem-terra com retaliações.

Mas isso não escandaliza.

Os ruralistas querem reinventar uma CPI para criminalizar o MST e intimidar o governo. Eles não querem a democracia e a justiça social. Eles querem continuar escravizando os trabalhadores rurais e impedir a reforma agrária no Brasil.

Mas isso não escandaliza.

Joaquim Nabuco, o abolicionista, dizia que a abolição da escravatura era indissociável da democratização do solo pátrio. Monarquistas e republicanos não lhe deram ouvidos e a concentração das terras em poucas mãos continua escandalosa.

Mas isso não escandaliza.

Antes da abolição, a rebeldia dos escravos escandalizava, mas o açoite neles, não.

Artigo do estatístico Osvaldo Russo, coordenador do Núcleo Agrário Nacional do PT e ex-presidente do Incra.

Texto extraído do blog Diário Gauche.