quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Diário Gauche: Navalha de Occam


Certa vez, no muniocípio de São Luiz Gonzaga, um amigo e eu fomos a um famoso "buteco", tomar uma "pinga". Era período eleitoral e o debate político tomou conta do ambiente.

Um cliente do bar manifestou-se de forma muito reacionária, altamente afetado pela linha de pensamento dominante, defendendo propriedade privada, livre iniciativa e "contestando aqueles que contestam".

Minha surpresa foi a manifestação do dono do bar, um sujeito calmo e muito paciente, que não satisfeito com as baboseiras que o cliente proferia, passou a explicar como o mundo funciona. Sua dialética era impecável, seus exemplos muito claros e objetivos. Chegou a explicar conceitos marxistas, exemplificando com uma caixa de palitos. Explicava:

- "Digamos que esses palitos sejam a riqueza do mundo. O que acontece se eu resolvo me apoderar da maior parte dela?" ele mesmo respondeu, enquanto o cliente coçava a cabeça, confuso: - "Sobra muito pouco pra dividir entre os demais."
Achei aquilo fantástico, explicar conceitos complexos, para os quais usávamos de uma "verborragia" assustadora, o dono do "buteco", de forma muito simples, fazia seu cliente compreender aquilo que, em vão tentávamos explicar.

Lembrei desse fato ao ler o texto abaixo, que extraí do Blog Diário Gauche, e que também, de forma muito simples, explica "complexos temas", no caso, a atual crise do capitalismo.

Os recebíveis da Vila Carrapato

Recebi este e-mail, hoje:

O seu Biu tem um bar na Vila Carrapato, e decide que vai vender pinga “na caderneta” aos seus leais fregueses, todos bebuns, quase todos desempregados.

Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de Emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, PQP, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bebuns da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o bar do seu Biu vai à falência.

E toda a cadeia sifu.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caros,


Novo capítulo no blog do Igor: Os Espasmos do Império! Imperdível!

endereço: alexeievitchromanov.zip.net

Alberto

Júlio Garcia disse...

Muito boas postagens, Cristiano. Simples, didáticas e reveladoras da fragilidade desse sistema...
Abração!